Academia SBOP · Caso clínico

Fratura do antebraço ou Galleazzi?

Prof. Dr. William Belangero, UNICAMP-SP 4 min de leitura
Fratura do antebraço ou Galleazzi? Discussão clínica
Material científicoProf. Dr. William Belangero, UNICAMP-SP

Radiografia realizada 10 dias pós-redução - 01/10/2014.

Identificação: 
12 anos, sexo masculino, estudante.

Lado dominante:
Direito.

História:
Paciente sofreu queda de skate sobre o punho direito em setembro de 2014, com escoriações superficiais sobre o dorso distal do antebraço, sem comorbidades. Mecanismo do Trauma.

Avaliação clínica inicial:
- Deformidade e dor no punho direito;- Sem lesão neuro vascular.

Radiografia:

Radiografia inicial 21/09/2014.

Diagnóstico:
- Galeazzi equivalente?
- Pseudo Galeazzi?

Conduta – Urgência:
- Redução Incruenta e curativo nos ferimentos;
- Imobilização com gesso braquio-palmar em médio-prono;
- Radiografia controle pós-redução.

Radiografia pós-redução:

Radiografia pós-redução 21/09.

Radiografia realizada 10 dias pós-redução - 01/10/2014.

Aceitar a falta de redução da ulna?
Reduzir novamente no CC e se necessário fixar a ulna?

Radiografia realizada 6 semanas pós redução - 05/11/2014.

- Fraturas consolidadas;
- Ulna com redução em baioneta.
Aceitável?

Radiografia realizada em 07/04/2015.

- Articulação radio ulnar distal com relação anatômica preservada;
- Placa de crescimento distal da ulna aberta.

Resultado final após 6 meses:

- Familiares e paciente satisfeitos com o resultado;
- ADM de punho e prono supinação completas;
- Sem deformidades.

Discussão:

A fratura de Galeazzi é rara no adulto e mais rara na criança. Na criança geralmente ocorre a separação da epífise distal da ulna no nível da placa de crescimento com manutenção da articulação radio ulnar distal. Nesta condição, esta fratura é chamada de Galeazzi equivalente ou de pseudo Galeazzi. Geralmente o tratamento é realizado com redução fechada da fratura do radio e do descolamento da fise distal da ulna mantendo-se o antebraço em supinação para desvios dorsais e em pronação para desvios volares. Há autores, no entanto, que indicam sempre a imobilização em supinação independente do desvio inicial. A redução aberta estará indicada quando houver instabilidade da radio ulnar distal após a redução da fratura do radio.

Nestes casos poderá ser necessária a fixação do radio com placa e parafusos e da articulação radio ulnar distal com fios de K como é feito no adulto. O prognóstico pode não ser bom se ocorrer fechamento da placa de crescimento distal da ulna que comprometerá secundariamente a função da articulação radio ulnar distal pela falta de crescimento da ulna.

Na fratura chamada Galeazzi equivalente ou pseudo Galeazzi pode ocorrer interposição de partes moles no foco da fratura da ulna impedindo a redução do descolamento epifisário pelo periósteo ou pelo tendão extensor ulnar do carpo. O extensor ulnar do carpo esta localizado no sexto compartimento e passa em um túnel osteofibroso, próximo ao processo estiloide da ulna que pode ser rompido no momento do trauma causando assim, a interposição deste no foco da fratura. Nestes casos pode ser necessária a redução aberta da ulna e ou do radio, com fixação com fios de K e aparelho gessado ou fio de K e placa, como é feito em adultos, dependendo da idade do paciente.

No caso em questão houve fratura distal da diáfise do radio associada com descolamento distal da epífise da ulna, classificada como Salter Harris tipo II. Não houve ruptura da cartilagem triangular e da articulação radio ulnar distal, já que na radiografia em perfil a articulação radio ulnar parecia estar preservada. Apesar da falta de redução do deslocamento epifisário da ulna, não foi indicada a redução aberta e a imobilização foi feita com gesso em médio prono supinação.

Observou-se na evolução a consolidação das fraturas e a remodelação das mesmas após 6 meses de seguimento, com boa evolução clínica e manutenção da prono supinação do antebraço e flexo extensão do punho.

O caso mostra que o tratamento não cirúrgico pode ser indicado para crianças, quando a articulação radio ulnar distal esta preservada. A redução aberta do descolamento epifisário não foi necessária e poderia eventualmente ter causado fechamento parcial ou total da epífise distal da ulna com comprometimento da função da articulação radio ulnar distal. Como o número de casos citados na literature é relativamente pequeno, considerou-se que a apresentação deste caso seria importante para chamar a atenção para este diagnostico na criança e para discutir as opções de tratamento, levando-se em consideração os princípios que devem ser observados no tratamento do esqueleto em crescimento.

Bibliografia:GalanopoulosI, Fogg Q, Ashwood N, Fu K. A widely displaced Galeazzi equivalent lesion with median nerve compromise. BMJ Case Rep. 2012 Aug 18;2012.Mitsui Y, Yagi M, Gotoh M, Inoue H, Nagata K Irreducible Galeazzi equivalent fracture in a child:an unsual case. J Orthop Trauma 2009 Jan: 23(1) :76-9.Tachdjian’s Pediatric Orthopaedics from Texas Scothish Rite Hospital for Children. John Anthony Herring – 4th edition, 2008. Upper Extremity Injurie Chapter 42, Galeazzi Fractures, pag 2557.